quarta-feira, 15 de junho de 2011

A Bandeira do Divino de Mirim

A cultura de um povo pode ser observada através do conjunto das manifestações expressas ao longo do ano, nos vários campos das ações humanas. Surge da combinação espontânea de diversos elementos, os quais representam para o povo, fundamentos do seu saber ser e saber fazer. Nesse conjunto heterogêneo reúnem-se a religiosidade, o imaginário, o saber fazer, as relações com a natureza e os sentimentos.


No litoral catarinense, entre os descendentes dos açorianos, aqui fixados em meados do Século XVIII (1748-1756), desenvolveu-se um conjunto de valores naturais, que possibilitou a convivência harmoniosa entre a Igreja e o Povo.

A cultura popular fluía, ao longo dos meses do ano, em parceria estreita com os valores religiosos e, em círculos alternados com as atividades econômicas. Na verdade, o ano Açoriano do Litoral Catarinense tinha um círculo expressivo, onde apresentam atividades sócio-culturais e religiosas manifestando uma forma vigorosa, dando vida às comunidades.

A comunidade de Mirim, ainda apresenta marca muito forte dentro do ano cultural açoriano. A Festa do Divino Espírito Santo.

O ciclo do Divino Espírito Santo inicia no Domingo de Pentecostes. Época de fartura onde ocorriam as farinhadas. Processa-se o ciclo do Divino Espírito Santo nas comunidades de origem açoriana do Litoral Catarinense da qual faz parte: as novenas, as cantorias do Divino Espírito. Ao contrário dos Açores, onde estes festejos ocorrem com desvinculação da Igreja, aqui se vincula profundamente à estrutura das Paróquias.

A Bandeira do Divino Espírito Santo, em pano vermelho, com uma pomba em cor branca aplicada no centro, enfeitada com flores e fitas coloridas, doadas através de promessas de pessoas devotas, presas na extremidade superior do mastro, encimada por uma pomba representativa do Divino Espírito Santo.

A saída da Bandeira do Divino, de Mirim, para o peditório acontece no Domingo de Pentecostes. Na Igreja, reúnem-se os fieis foliões, encarregados e as moças que carregam as bandeiras para celebrarem a novena de Saída da Bandeira. Após a cantoria, os fieis costumam beijar a bandeira e fazer a sua doação antes que ela parta para o peditório.

Todos saem em cortejo, acompanhados da cantoria até a lagoa Mirim, onde as embarcações esperam para seguirem em procissão marítima até a comunidade de Praia Vermelha, município de Imaruí. Lá, o cortejo é recebido com fé e devoção onde dá início o peditório.

A Bandeira do Divino, como assim costumamos chamar, é levada às comunidades, recebida de casa em casa, acompanhada de um cortejo, formado pelos foliões e devotos.

A Folia do Divino assim é composta:

· Duas moças que carregam a Bandeira;
· Um encarregado vestindo opa vermelha, mostrando no peito o Resplendor preso a uma fita    vermelha alçada ao pescoço e à mão a salva para recolher os donativos;
· Um tirador de versos (repentista);
· Um tocador de rabeca;
· Um tocador de viola;
· Um tocador de tambor de respostas;
· Um fino (tripa) que canta no final.

O som do tambor anuncia a chegada, a porta da casa é aberta para a acolhida. Ao chegar a casa, o grupo introduz cânticos pedindo permissão para entrar. As moças entram com as Bandeiras seguidas do encarregado e da cantoria, saudando a família que os acolhe. A cantoria é interrompida, “Momento da Visita”. Na sequência do ritual, a Bandeira é beijada por todos da casa, em atitude de grande respeito. As pessoas fazem seus donativos, agradecem as graças recebidas e, às vezes, colocam na Bandeira uma fita como pagamento de promessa.

Após conversarem por algum tempo, a cantoria recomeça para as despedidas e agradecimentos. Terminando a visita, o cortejo segue para outra casa anunciando sua chegada.

A última casa a ser visitada, no dia de visita, é a casa do pouso. Onde, acontece a novena e a arrematação. Ali, fica a Bandeira até no outro dia, dando continuidade ao peditório. É considerado uma honra hospedar a “Bandeira do Divino”, além do prazer.

O encarregado procura a casa dos mais devotos e família que tem promessas devidas, para pedir o pouso. Na noite festiva acontece a novena. As famílias que foram visitadas nesse dia se dirigem à casa do pouso para participarem da novena, onde tem cantoria e arrematação das prendas doadas durante o dia de visitação.

Terminado o peditório, que inicia no Domingo de Pentecostes, retorna a comunidade, de Mirim, nas vésperas da festa para dar início aos festejos.

É interessante e de suma importância se observar que: A Bandeira do Divino Espírito Santo de Mirim, durante o peditório e dias de festa, não são separadas e ficam sempre cruzadas simbolizando a União.

O encarregado é a pessoa representativa no trecho onde percorre a Bandeira.

A Bandeira do Divino Espírito Santo de Mirim percorre muitas comunidades durante o peditório: Praia Vermelha, Nazaré, Figueira Grande, Fazenda São Paulo, Passagem do Rio D’Una, Vargem do Rio D’uma, Águas Mornas, Riacho, Barra do Rio D’uma, Alto Penha, Penha, Penhinha, Penhinha Grande, Barrinha, Ressacada, Grama, Arroio, Campo D’Una, Alto Arroio, Ibiraquera, Araçatuba, Sambaqui, Nova Brasília, Ribanceira. Encerrando no Mirim, dando início as festividades.

Domingo, dia 12 de junho, após a Missa, celebrada às 9 horas, a Bandeira do Divino partiu em cortejo da Igreja até a Lagoa Mirim, em seguida por via marítima, até a localidade de Praia Vermelha, sendo recepcionada pelos fieis daquela comunidade. A travessia da Bandeira do Divino foi acompanhada por várias embarcações.


Confira o vídeo da cantoria da Bandeira do Divino e algumas fotos da saída da bandeira.





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